quarta-feira, 29 de julho de 2009

SEM O CRISTIANISMO NÃO SERÍAMOS NADA, E A BARBÁRIE SOBRESSAIRIA...

O espírito cristão no Ocidente*

por Newton de Oliveira Lima - Mestre em Direito UFRN

Desde o advento do secularismo e do laicismo com a Idade Moderna, a crítica ao cristianismo é uma constante. As mais acerbas insinuações críticas partem do fato de que a Igreja Católica teria dominado econômica, política, cultural e espiritualmente os povos europeus durante a Idade Média, difundindo a fides catholica através da pregação do medo do inferno, da tortura da confissão e até por práticas corruptas como a venda de indulgências. Acusam-na de usar os mesmos artifícios contra o gentio indígena das áreas colonizadas pelos europeus, sendo conivente com o extermínio e a escravização dos povos dominados.

Quanto ao protestantismo, acusam-no de ser o formador do espírito capitalista da modernidade, de incitar o poder temporal sobre o poder religioso e de laicizar a fé, levando ao relativismo e deste ao próprio ateísmo, sem falar no fato de que o cientificismo desenvolvido nos países protestantes (Holanda, Inglaterra, Estados Unidos) levou a um endeusamento da própria razão e da Ciência como “nova religião”.

Negar esses fatos é impossível; reinterpretá-los aprofundando a sua razão de ser é necessário. O fato em si não existe. Adotando uma postura idealista do conhecimento, tudo o quanto se passa na História é em realidade a exteriorização que o espírito subjetivo dá ao reinterpretar a natureza consoante seus parâmetros; o que não significa que se tenha de cair num subjetivismo, porém que os critérios compreensionais e fenomenológicos revelem a singularidade e a teleologia dos atos humanos estudados, descortinado assim os fatos históricos em função de uma visão realmente crítico-racional e da destinação axiológica dos mesmos, que não esteja eivada por um preconceito burguês de racionalismo materialista e/ou cientificista contra a verdade histórica, pois já dizia Friedrich Nietzsche: “fatos não há, o que há são interpretações”.

Assim, despindo-se de preconceitos e constatando a profundidade valorativa e espiritual das ações, pode-se observar variegados pontos positivos no desenvolvimento do cristianismo. Primeiramente, deve-se abandonar a idéia pré-concebida de que a Idade Média foi a “Idade das Trevas”, com ausência de relevo cultural. No período medieval, com a pulverização das populações européias pelos campos e a ausência de um poder central, somente a Igreja garantiu a unidade moral, política e espiritual da população; foi ela quem salvaguardou a cultura greco-romana contra a destruição dos bárbaros no recanto dos mosteiros, educando e evangelizando as populações bárbaras; ela impôs uma ordem e uma fé unívocas para a Europa feudalizada, que só assim pôde resistir às investidas árabes de conquista.

Foi sob a inspiração da fé cristã que o Ocidente não declinou ao jugo maometano na Idade Média, e sob os auspícios de Deus na instigação católica, Domício Enobarbo venceu Átila em 425, na localidade Châlons; Carlos Martel bateu os muçulmanos em 732 em Poitiers; Oto, o Grande, bateu os magiares em Lechfeld (955); Em Navas de Toloso (1212), a força cristã espanhola sob liderança de Afonso de Castela, Pedro de Aragão e Sancho, O Forte, derrotou os árabes abrindo caminho apara a libertação da península; Francisco de Almeida venceu em Diu, no ano de 1509, os mulçumanos, os quais D. João da Áustria venceu em Lepanto, em 1571; Carlos de Lorena resistiu à investida árabe a Viena em 1683”.

Houve na época medieva amplíssima atividade cultural, se bem que voltada predominantemente para a Teologia: as escolas filosóficas de São Vítor, Chartres, a Patrística(com Sto. Agostinho) e a Escolástica(com São Tomás); a reforma artístico-literária e educacional carolíngea, levada a cabo pelo monge inglês Alcuíno; a literatura brilhou com Petrarca, Dante Alighieri e Boccacio; a pintura com Giotto, Cimabue e Duccio; a amplitude construtiva das arquiteturas gótica e românica; a música religiosa do Cantochão, a “Ars Nova” e a “Ars Antica” da Polifonia; na literatura, os cantos cavaleirescos dos trovadores e a poética popular épica e lírica ajudaram a formar as línguas nacionais; emergiram as primeiras universidades em Bolonha, Paris, Oxford, Salamanca, Montpellier. A produção científica desenvolveu-se com Roger Bacon (Física e método científico), Galeno (Medicina) etc.

Claro que a Igreja Católica se aferrou em demasiado à Física aristotélica que favorecia suas teses teológicas, e impediu o livre curso do pensamento científico, cerceando homens como Copérnico, Galileu, Vesalius, Servet e Harvey. A dogmática da teoria teológica e filosófica cristã, apesar de imposta como verdade inconteste pela Igreja, o que tolheu a liberdade de filosofar, foi impregnada dos mais altos valores espirituais, formando o homem ocidental tal qual ele é; queiramos ou não, consciente ou inconscientemente nós ocidentais somos todos cristãos.

A Filosofia cristã desenvolveu conceitos sobrevalentes para toda a reflexão filosófica posterior: o de pessoa humana, a auto-transcendência e individualidade espirituais, o moralismo humanista e personalista, a Axiologia espiritualista, o estudo do Ser, colocando as valorações espirituais e culturais acima das demais, dignificando a pessoa humana e protegendo os valores superiores do espírito (religiosidade, moralidade, esteticidade, cognoscibilidade, afetividade, sociabilidade, juridicidade).

A inquisição por certo representou em certos pontos um exagero de perseguição, mas o fito mor sempre foi a defesa da fé e da moral cristãs. A acumulação de terras na mão da Igreja foi a forma de contrabalancear o poder dos latifúndios privados em prol da própria comunidade - houve as propriedades alodiais onde todos podiam cultivar- na Idade Média podia haver pobreza, mas não miséria.

Por último restava sempre o dever da caridade e a doutrina oficial da Igreja Católica sempre fora a contenção do poder econômico em prol dos objetivos comunitários, evitando os excessos do comércio e da atividade negocial (usura, exploração laboral etc). Se houve exageros na atuação das igrejas cristãs (católica, protestante e ortodoxa), é preciso dizer que são os homens que erram- a idéia e os valores defendidos, em sua objetividade de existência, justificam a atuação como um todo.

Os valores válidos ad aeternum defendidos pelo cristianismo, resguardando a espiritualidade humana, se expandiram e diversificaram em expressões culturais as mais variegadas, que nele se fundamentam até sem tomar consciência disso.

Se a burguesia concebe que criou o individualismo moderno, iludi-se; consoante Hegel apud Merquior (1991), foi a visão personalista e, por conseguinte, individualista da espiritualidade cristã que proporcionou a individualidade, a qual desabrochou portentosamente com a demolição da estrutura sócio-econômica medieval.

Aliás, a liberdade individual que emergiu gradualmente com o protestantismo após a Renascença e a Reforma, se implicou em uma contribuição para o capitalismo, pois favoreceu a autonomia do sujeito para consumir e produzir, também gerou, é importante não olvidar, amplas manifestações culturais que enriqueceram sobremodo o espírito humano, sendo os valores estéticos e gnoseológicos sendo assaz reforçados: romantismo, idealismo filosófico, existencialismo, modernismo cultural, expressionismo etc (fatores estes não colocados por Max Weber como aspectos positivos derivados da modernidade).

Não se pode querer atribuir à fé protestante de modo determinista a gestação e o incentivo espiritual ao capitalismo, interpretando de modo superficial a tese de Weber (2001) de que foi a ética protestante que embasou o modus operandi do homo oeconomicus capitalista que visa predominantemente o trabalho e o lucro, sucessor espiritual do asceta protestante (calvinista e batista) “predestinado à salvação” que vivia para poupar dinheiro e trabalhar, o fazendo por se considerar um “eleito de Deus”, sendo sua prosperidade econômica um “sinal de salvação”.

Não que a tese de Weber não seja válida para os limites explicativos que ele propõe: a ética protestante como principal incentivadora da contenção de despesas pessoais, da acumulação de capital e do ethos de conceber a prosperidade financeira como dádiva divina.

Todavia, a partir da ressalva do próprio Weber, de que primeiro: o capitalismo se desenvolveu sob um modo não racional e mercantilista antes da Reforma nos países latinos católicos (Espanha, Portugal e Itália) devido à necessária expansão econômica que a Europa teria de sofrer para abastecer suas populações crescentes, insatisfeitas com a progressiva declinação do sistema agrícola feudal; segundo: que o capitalismo moderno, progressista e racionalista, sofreu ascendências outras que provém de fontes claramente não cristãs, tais como o antropocentrismo e o espírito crítico renascentista, a secularização cultural operante desde as Cruzadas e do revigoramento comercial incessante desde então; terceiro, a clara ascendência da racionalidade técnica e científica decorrente das novas necessidades econômicas e culturais pós-medievais, que gerou a construção de um modo de organizar a realidade cada vez mais utilitarista e calculista; terceiro: o renascimento da cultura clássica greco-romana e o humanismo renascentista foram progressivamente afastando o homem da espiritualidade católica, abrindo portas para a secularização, para o fortalecimento dos valores político, econômico, social, olvidando os valores moral e religioso.

Weber também coloca que setores inteiros e absolutamente fundamentais do protestantismo, como o luteranismo (ligado ao latifúndio nobiliar e ao Estado monárquico germânico e nórdico), o metodismo (pela forte preocupação social), foram contrários ao desenvolvimento economicista da sociedade, combatendo as outras vertentes do protestantismo e tendo atuação até mais conservadora que o próprio catolicismo, que se aliou ao mercantilismo das potências latinas.

Como colocam Fernando Fernandez-Armesto e Derek Wilson (1997), tem-se que conceber a História Moderna e nela a concomitante evolução do cristianismo como um processo gradativo como aliás, o é a totalidade histórica, em que as mudanças geradoras da modernidade, como as acima citadas, escapam da ascendência estritamente cristã e protestante, tendo fatores contrários ao próprio cristianismo ascendido sob o Ocidente para que ele se apresente tal qual é atualmente.

Os autores supracitados mencionam ainda que do protestantismo advieram não somente idéias e apregoação de posturas que favoreceram o capitalismo, mas também o socialismo, o humanismo moderno, e até mesmo o comunismo, devido às reflexões acerca dos conceitos de igualdade, solidariedade, liberdade etc, todos concebidos no âmbito cristão.

Afinal, o que a Reforma Protestante representou essencialmente para a espiritualidade humana foram várias tentativas de relacionamento com os preceitos cristãos sob um enfoque mais pessoal, mais autêntico e significativo para os povos e indivíduos, num esforço hermenêutico fortalecedor dos princípios cristãos, o que se por vezes atingiu interpretações radicais e surpreendentes, que podem ter gerando até condutas anti-cristãs (aqui se inclui a concepção ética que fomentou o capitalismo), intencionalmente visavam instaurar um caminho de ligação verdadeira e profunda com a fé fundamental na mensagem deixada por Cristo, a mais poderosa e significativa para o espírito humano em toda a História.

Apesar de tudo, se o materialismo e o secularismo utilitarista pós-modernos, desde suas formulações filosóficas mais elevadas até seu significado como modus vivendi, concebe que pode descartar a idéia de Deus e de uma realidade espiritual, ele se trai quando passa a cultuar bens materiais ou idéias não espirituais no lugar da idealização de uma divindade transcendente a este mundo: o motivo religioso inconscientemente volta a imperar, só que destorcido, o que causa boa parte do sofrimento na sociedade contemporânea, como demonstra Carl Gustav Jung em sua psicologia do inconsciente.

A liberdade como fator de caracterização da personalidade não foi somente uma conquista moderna, mas foi o resultado da pregação do personalismo cristão e da auto-valorização do indivíduo que o cristianismo incitou, e que a modernidade, com o capitalismo global tecnológico e científico vem destruindo assombrosamente.

Adotando uma gnoseologia crítica, axiológica e fenomenológica do fenômeno cristão ocidental, em contraposição às historiografias racionalista, materialista ou positivista que são incapazes, por não possuírem uma metodologia gnoseológica adequada, de avaliar o verdadeiro alcance que teve o desenleio espiritual cristão, que consistiu e consiste em relevante fase do evolver espiritual da humanidade.

Sem o cristianismo não seríamos nada, e a barbárie sobressairia, como ainda pode sobressair, se nos afastarmos dos valores que devem preponderantemente guiar o espírito humano (religiosidade, moralidade, afetividade, esteticidade, sociabilidade).

REFERÊNCIAS

ARMESTO, Fernando Fernandez-Armesto; WILSON, Derek. Reforma. Rio de Janeiro: Record, 1997.

MERQUIOR, José Guilherrme. O liberalismo Antigo e Moderno. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001.

*Publicado originalmente no site revistaamalgama.hpg.com.br em Junho de 2004

Fonte: http://jusvi.com/artigos/38263

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